Testemunhos

“Um admirável mundo novo”
 
Este mês estava tranquilamente a ler uma entrevista dada a um jornal semanal português pelo americano Timothy Ferriss, um neurocientista que, ao fim de 30 anos de vida, decidiu despedir-se do seu trabalho para abrir uma empresa de suplementos para o cérebro. No livro intitulado “4 Horas Por Semana” ele conta como mudou radicalmente a sua vida, passando de um trabalho de 80 horas por semana, que lhe roubava toda a vida para além do emprego, para um negócio em que trabalha quatro horas por semana, recebendo num mês o que recebia num ano. Ao ler esta entrevista, os meus olhos ficaram parados, pelo menos dois minutos, a ler e a reler uma frase deste senhor: “Nem contratar bioquímicos e profissionais foi caro”. A verdade é que esta frase me deu que pensar! Por um lado, achei realmente curioso o facto dos bioquímicos serem referidos por um senhor que mudou radicalmente de vida para alcançar o sucesso (quantos de nós é que também já pensaram em dar um outro rumo à vida profissional?!...). Por outro lado, fiquei a tentar perceber se este empresário vê os bioquímicos como alguém que ganha bem. Será que essa visão vem do facto de nos reconhecerem como bons profissionais?! Isto levou-me, de repente, a uma questão que, de certeza, já passou pela cabeça de muitos de nós… Será que fora de Portugal a vida de bioquímico é diferente?!... A esta pergunta ainda não posso responder mas posso tentar dar uma ideia de como é a vida de um bioquímico em Portugal.
Neste boletim, a ANBIOQ decidiu reunir as experiências de vários bioquímicos que se encontram espalhados por vários ramos profissionais. A mim coube-me a tarefa de tentar resumir a transição da faculdade para um mundo totalmente novo: o da procura de emprego.
No último ano de faculdade começa a surgir aquele “friozinho na barriga” que nos leva a pensar no que iremos fazer no futuro. Mas logo de seguida, nasce um novo sentimento…aquele que nos reconforta porque nos recorda o que todos os professores nos costumavam dizer: os bioquímicos têm sempre trabalho porque são possuidores de grande inteligência, de versatilidade e do tal “saber fazer e saber aprender”. Então, saímos confiantes do mundo estudantil e começamos a enviar currículos, certos de que nos vão querer, de certeza, em vários lugares. Neste caminho encontra-se de tudo: os que encaram este período como um tempo de descanso e que acham estranha a imediata procura de emprego, os que dizem que com o curso de Bioquímica o emprego é garantido, os que nos querem transmitir que na nossa área não há trabalho, os que interiorizaram que os bioquímicos não têm vida pessoal, os que são licenciados e que procuram qualquer emprego, os que não têm habilitações e rejeitam empregos que lhe são propostos pelo centro de emprego, enfim…é todo “um admirável mundo novo”!!!
Depois desta fase seguem-se algumas respostas aos envios de currículos, onde se percebe que o mercado está cheio. Então, quem ainda não seguiu o caminho das bolsas de investigação, começa a ponderar essa hipótese, pelo menos enquanto não surge o tal emprego estável. Quando se entra no mundo da investigação, quer seja ainda nos tempos de faculdade, quer seja através de um estágio ou de uma bolsa, percebe-se de imediato que a única forma de permanecer no ramo é através da realização de um doutoramento, que poderá levar a uma suposta subida de escalão. Então, e quem não quer fazer um doutoramento?! Essas pessoas deparam-se novamente com um problema, porque o doutoramento é o “normal” caminho da investigação.
Conheço vários bioquímicos que sabem que o seu futuro não passa por um doutoramento. A estas pessoas restam as seguintes hipóteses: continuar a enviar currículos, conseguir um trabalho que nada tem a ver com a licenciatura, ter uma ideia de negócio acompanhada de apoios e de dinheiro para investir, descobrir como é a vida de um bioquímico fora de Portugal…
Com esta reflexão tentei transmitir a quem procura emprego que a jornada é complicada mas que pelo caminho ainda há situações engraçadas e que nos fazem pensar e, às vezes, rir. A bioquímica é fascinante, mas em Portugal o caminho de reconhecimento dos bioquímicos como bons profissionais ainda é bem longo e sinuoso, se bem que hoje em dia o desemprego de licenciados atravessa todas as áreas. Cada um de nós tem de ajudar a construir este caminho, escolhendo o seu próprio trilho. Como bioquímicos sabemos que o importante é ser persistente e não desistir. Um dia, talvez os futuros bioquímicos de Portugal já não achem estranha a frase “Nem contratar bioquímicos e profissionais foi caro”!
 
Sara Berguete
 
 
Investigadora ou docente? Qual o balanço?
 
Entrei no curso de Bioquímica da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto em 1990. As informações que obtive da licenciatura quando resolvi candidatar-me foram de que era um curso com componentes de Biologia e de Química muito fortes, com elevadas médias de entrada e de uma exigência bastante maior do que outras licenciaturas em Bioquímica espalhadas pelo país (à data só existia em Coimbra e, salvo erro, também em Lisboa), que estava muito vocacionado para a investigação científica e que em relação a outros cursos mais tradicionais estava mais à frente. Foi o curso da minha primeira opção mas na altura não sabia o que o curso acarretava e qual iria ser o meu futuro. Acho que só por volta do 3º ano do curso vislumbrei que iria fazer investigação pela minha vida fora. Lembro-me de alguns amigos dos meus pais nunca terem ouvido falar na licenciatura em Bioquímica e nem eu própria sabia muito bem responder à questão “O que vais fazer quando te licenciares?”. “Investigação científica”, respondi algumas vezes não muito convicta. Ou em resposta ao meu pai: “Talvez professora universitária”, embora não tivesse a mínima noção do que essas duas actividades acarretavam a nível profissional e até pessoal. Por várias contingências, quando acabei o curso em 1994, vim parar ao Instituto de Histologia e Embriologia da Faculdade de Medicina do Porto onde tomei contacto com várias metodologias de investigação em neurociências, estagiei em laboratórios estrangeiros e mais tarde defendi a dissertação de doutoramento em Biologia Humana, mais concretamente em mecanismos neurobiológicos de processamento da informação dolorosa. Nessa altura só existia uma licenciada em Bioquímica no Instituto, e comigo o número elevou-se para dois, pelo que “os bioquímicos”, em franca minoria em relação aos biólogos, eram quase “aves raras”. A situação mudou nos últimos anos e hoje há quase mais bioquímicos do que qualquer outra licenciatura entre todos que trabalham - docentes, bolseiros de investigação e alunos de estágio, mestrado ou doutoramento – no Instituto de Histologia da Faculdade de Medicina do Porto. Só depois de ter defendido a minha tese, em 2001, fui convidada para exercer funções de docente, como professora auxiliar da disciplina de Histologia e Embriologia, que era (e ainda é) parte do currículo do 2º ano da licenciatura em Medicina. Já antes tinha tido uma pequena experiência como docente numa escola superior de enfermagem situada no Porto, que me tinha agradado bastante, para grande espanto meu.
Devo confessar que tendo enveredado por uma área de investigação científica com uma forte ligação à Fisiologia (neurofisiologia) e Anatomia (neuroanatomia) Humana e não tanto à Bioquímica básica e biologia molecular, penso muitas vezes que talvez tivesse sido mais vantajoso para mim ter tirado uma licenciatura em Medicina, ou pelo menos uma licenciatura que tivesse uma componente anatomo-fisiológica maior da que a que tinha a licenciatura em Bioquímica na altura. Apesar de já estar há 13 anos nesta área de investigação, às vezes ainda sinto falta de algumas noções base para as quais não tenho, hoje em dia, tempo estudar e nesse campo sinto-me sempre em desvantagem em relação a colegas de outros cursos. Por outro lado, o curso de Bioquímica, muito vocacionado para a investigação científica, deu-me uma preparação para o trabalho laboratorial e para a vida de investigador que outros cursos não dão. A vida de investigador é de procura constante e de luta por objectivos e resultados e em fases da vida, como a de aluno de doutoramento, a dedicação é quase total, de tal maneira que a vida pessoal pode ser deixada um pouco para segundo plano. A investigação pode compreender momentos de pura satisfação, quando um artigo é aceite para publicação em revistas indexadas internacionalmente, mas pode também trazer muita frustração, quando despendemos todas as nossas energias e a sorte parece não estar do nosso lado. Mas isto também depende da personalidade de cada um… Em relação à vida académica, estes sete anos em que tenho sido docente na Faculdade de Medicina têm-me dado muita satisfação. O meu amadurecimento tornou-me mais extrovertida e aprecio bastante o contacto com os alunos e a componente humana/pedagógica dessa vivência. Para além disso estou a leccionar Histologia, disciplina com a qual nunca tinha tido contacto na licenciatura de Bioquímica e que por isso tive necessidade de fazer uma auto aprendizagem, pontuada por algumas explicações mais detalhadas de colegas mais velhos, e que me tem sido também muito útil na actividade como investigadora. Também em termos de carreira é uma clara desvantagem ser-se docente na Faculdade de Medicina do Porto sem se ser médico, embora essa desvantagem em relação aos clínicos se esteja cada vez mais a esbater, principalmente no caso de docentes de disciplinas dos anos do ciclo básico da licenciatura, como é o caso da Histologia.
 
Em jeito de conclusão, posso afirmar que o saldo do meu trajecto como investigadora e docente na Faculdade de Medicina do Porto tem sido positivo tanto do ponto de vista profissional como pessoal. O ambiente de trabalho tem sido até agora bom e tenho feito amigos e colegas de que gosto muito. A actividade docente veio preencher algum vazio e principalmente frustração pelo muito trabalho sem, por vezes, alcance de resultados satisfatórios, que a actividade de investigadora, por si só, me fazia sentir.
 
 
Fani Neto, bioquímica, investigadora e professora auxiliar das disciplinas de Histologia Básica e Embriologia e Histologia e Embriologia de Órgãos e Sistemas, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto
 
 
Quem é?
Paula Cristina Vaz Bernardo Tavares

Licenciada em Bioquímica
Mestre em Biologia Celular
Doutora em Ciências Biomédicas
Toda a formação académica foi obtida na Universidade de Coimbra, apenas na realização do doutoramento uma parte substancial do trabalho foi realizada na Universidade de Salamanca.
 
 
Mesmo sem uma noção clara, desde a escola primária ansiava por vir a ser cientista, porém durante toda a sua escolaridade orientou a sua visão para uma carreira em medicina, o que nunca se veio a concretizar. No início dos anos 80 ingressa na universidade para a licenciatura em Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC). É, porém, dois anos mais tarde que orienta os seus estudos para a carreira que agora desenvolve ao pedir a sua transferência para a licenciatura em Bioquímica da FCTUC. Esta permitiu-lhe uma preparação para a sua verdadeira paixão: a investigação. A licenciatura forneceu todas as ferramentas que aliadas à dedicação, espírito de iniciativa e prazer de trabalhar em equipa, a fizeram chegar à privilegiada posição que agora ocupa. Actualmente é professora de fisiologia da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra onde coordena um Curso de Mestrado, é Presidente do Conselho Pedagógico e também desenvolve os seus projectos de investigação. Nos últimos dois anos supervisionou (como investigadora responsável) quatro projectos de investigação e sete projectos de tese (seis de mestrado e um de doutoramento). As suas capacidades de trabalho e humanas levam-na a manter protocolos de investigação com alguns conceituados laboratórios internacionais.
Em retrospectiva, toda a paixão pelo trabalho que realiza foi despertada pela licenciatura em Bioquímica que na altura era verdadeiramente de “banda larga” com espectros profissionais aliciantes.
 
 
AFINAL O QUE FAZ UM BIOQUÍMICO?
Deparei-me com essa pergunta quando consultei a página da ANBIOQ e vou dar aqui o testemunho sobre a minha experiência pessoal sobre alguns exemplos (mais alguns) das muitas coisas que um Bioquímico pode fazer. Licenciei-me em Bioquímica, no ramo de Bioquímica Aplicada, pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Quase imediatamente após a conclusão do curso inscrevi-me no Mestrado em Genética Molecular na Universidade do Minho. Simultaneamente, iniciei a minha função de docente no ISCS-N como assistente da disciplina de Bioquímica, que tinha como regente o Prof. Pedro Moradas-Ferreira. Essa minha experiência, académica e profissional, permitiu que se estabelecesse uma colaboração entre a Prof. Margarida Casal da Universidade do Minho e o Prof. Pedro Moradas-Ferreira que, em conjunto com as suas funções de docente, era investigador responsável pela unidade de Stress em Microrganismos no IBMC. Essa colaboração serviu de embrião para o meu projecto de Doutoramento, iniciado em 1998, sob a orientação da Prof. Margarida Casal e co-orientação do Prof. Pedro Moradas-Ferreira e realizado na Universidade do Minho e no IBMC. Fui bolseira PRODEP durante o período em que se desenvolveu o meu trabalho de Doutoramento e, em Fevereiro de 2002, defendi a tese de Doutoramento intitulada “Transporte e utilização de ácidos dicarboxílicos nas leveduras Kluyveromyces sp. e Saccharomyces cerevisiae: uma abordagem fisiológica, bioquímica e genética”. Durante o período em que decorreu a minha formação avançada (Mestrado e Doutoramento), a área de investigação em que estive envolvida foi relacionada com estudos de proteínas de membrana e caracterização bioquímica e genética de sistemas de transporte transmembranar de nutrientes. O transporte de nutrientes através da membrana plasmática consiste no primeiro passo da sua utilização, sendo assim essencial ao seu metabolismo celular. Este estudo, no caso da minha investigação, foi desenvolvido com objectivos biotecnológicos de melhoramento organoléptico das propriedades do vinho, através da construção e utilização de estirpes de leveduras geneticamente modificadas. A abordagem utilizada neste trabalho centrou-se essencialmente em estudos de bioquímica e biologia molecular, áreas que desde sempre me fascinaram. Também ainda durante o período em que decorreu o meu doutoramento tive o privilégio de fazer parte da comissão instaladora da ANBIOQ, pelo que devo referir que é um prazer acrescido estar agora a dar o meu testemunho como Bioquímica para este boletim.
Depois da defesa da tese, retomei a minha actividade docente no ISCS-N, assumindo a regência, em regime partilhado com a Prof. Doutora Roxana Moreira, das disciplinas de Bioquímica das Licenciaturas em Medicina Dentária, Educação Física, Saúde e Desporto e Psicologia Clínica. Na leccionação dessas disciplinas incidimos particularmente sobre a estrutura dos diferentes tipos de biomoléculas, o metabolismo das várias classes de nutrientes no organismo e as situações de integração metabólica, em que focamos nomeadamente o efeito da Nutrição nas alterações metabólicas do organismo e em diferentes patologias metabólicas. Em 2003, o Director do ISCS-N, Prof. Doutor Jorge Proença, lançou o desafio para se elaborar uma proposta de novas licenciaturas a apresentar pelo ISCS-N ao ministério da tutela. Um grupo de docentes, que incluía a Roxana Moreira, Bioquímica licenciada pela Universidade do Porto (cuja entrevista é também publicada neste boletim) e eu própria, entre outros colegas e amigos, resolveu responder a esse desafio e pensou então em cursos que se enquadrassem no projecto educacional, científico e cultural do ISCS-N e da CESPU e cuja área de formação se encontrasse em fase de expansão de conhecimento. Dessa reflexão conjunta nasceram as propostas dos cursos de Bioquímica e de Nutrição e Ciências Alimentares assim como a do Mestrado em Terapias Moleculares, também em funcionamento no ISCS-N. O curso de Nutrição e Ciências Alimentares foi aprovado em 2007, já segundo o formato de Bolonha, tendo sido nessa altura convidada pelo Director do Instituto para desempenhar funções de Coordenadora desta licenciatura.
A licenciatura em Nutrição e Ciências Alimentares, tal como a de Bioquímica, encontra-se integrada no Departamento de Ciências do ISCS-N onde o espírito de Bolonha é uma realidade. O Processo de Bolonha pressupõe uma mudança profunda na forma de ensino, diminuindo o carácter expositivo das aulas e aumentando a participação do aluno na sua aprendizagem. De acordo com o espírito de Bolonha, é objectivo destes cursos apresentar capacidade de produzir novo conhecimento, promover a inovação nesta área, criar, produzir e promover a cultura científica. Para isso, pretende-se introduzir ao longo dos cursos, as metodologias mais recentes na área educativa, (os PBL - Problems Based Learning - o e-learning, trabalho de campo, ensino independente apoiado/orientado pelos docentes do curso), associado, no entanto, às metodologias tradicionais de valor já comprovado. Foram estes os princípios orientadores que estiveram na génese do plano de estudos e na metodologia de ensino destes cursos. Pretende-se ainda promover a participação dos alunos em seminários, a integração em projectos de investigação, a organização de jornadas de alunos. No caso do curso de Bioquímica, foi ainda desenvolvido um projecto tutorial, cuja comissão coordenadora integro, em que se pretende desenvolver o espírito crítico do aluno e a promoção do seu crescimento científico através da atribuição de temas relevantes na área da Bioquímica, que o aluno irá desenvolver de forma acompanhada e utilizando diferentes tipos de ferramentas. É de referir que foi criada uma página web (www.projectotutorial.page.tl) onde os objectivos do projecto tutorial e os trabalhos desenvolvidos pelos alunos se encontram publicados e onde são prova do dinamismo destes novos Bioquímicos que se encontram agora a formar. Relativamente à minha postura relativamente ao processo de Bolonha, que é uma realidade que não se pode ignorar e que esteve presente desde a génese destes novos cursos do ISCS-N, devo referir que sou adepta dos seus princípios, defendo a mobilidade, a aprendizagem ao longo da vida e a construção do conhecimento com base no envolvimento do aluno neste percurso. Considero também que este processo é inevitável e irreversível, mas tal só pode ser feito com serenidade e reflexão. Não se pode (deve) baralhar, mudar os nomes e deixar tudo na mesma, mas também não se podem (devem) fazer alterações radicais, desprezando tudo o que foi feito até agora, incluindo o que de bom foi feito. Aproveitem-se os recursos crescentes postos à nossa disposição nesta nova era do ensino superior, promova-se uma cultura de participação e responsabilização do aluno na construção do seu conhecimento, mas aproveite-se também o legado histórico, pedagógico, científico e cultural que nos foi deixado. Não façamos uma massificação do ensino superior, mas antes uma partilha de culturas e conhecimento sem perder a identidade e individualidade.
Relativamente à minha função como coordenadora da Licenciatura em Nutrição e Ciências Alimentares, penso que a minha experiência Bioquímica é amplamente rentabilizada. A importância da Bioquímica na Nutrição e nas Ciências Alimentares é notória e cada vez mais evidenciada nos nossos dias. As alterações bioquímicas e metabólicas relacionadas com a nutrição apresentam cada vez maior impacto na saúde humana e estão relacionadas com doenças de elevado índice de morbilidade e mortalidade no mundo ocidental, tais como doenças cardiovasculares, cancro, diabetes, doenças neurodegenerativas, entre outras. As células do nosso organismo necessitam, para o seu bom funcionamento, ter uma nutrição adequada para as suas actividades metabólicas, essenciais à saúde e à vida. Além disso, determinados estados patológicos ou alterações do estado fisiológico do organismo pressupõem uma dieta adaptada a essas modificações. Sabe-se que a longevidade e a qualidade de vida estão relacionadas com uma dieta adequada e com a qualidade nutritiva dos alimentos e que a importância dessa dieta está ligada com a estrutura bioquímica, comunicação e metabolismo celular. O estudo bioquímico de patologias ou de outras alterações fisiológicas permitirá o conhecimento necessário para implementar uma dieta adequada às necessidades do organismo e o estudo do metabolismo de nutrientes trará chaves para o conhecimento molecular ao nível de áreas de grande expansão hoje em dia como a genómica funcional, proteómica e metabolómica. O stress oxidativo e envelhecimento, a obesidade, a diabetes, o cancro, a osteoporose, entre outros, são exemplos de situações onde a conjugação de saberes na área da Bioquímica e da Nutrição pode ter intervenção.
 
Odília Queirós

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